A Liderança e o Governo

É essencial ter líderes na igreja. Sem uma liderança adequada uma assembleia logo estaria em confusão, como qualquer comunidade estaria sem um governo. Isso aconteceu muito tempo atrás em Israel e os resultados foram muito graves (Juízes 21:25). Em muitas igrejas, a liderança, os procedimentos e o ministério são muitas vezes designados pelo homem ou por uma organização humana, com base em tradições, em vez das Escrituras do Novo Testamento. Como é escolhida a liderança entre os crentes que se reúnem de acordo com o padrão bíblico?

O Senhor estabeleceu duas formas de liderança em sua igreja. Estes são os anciãos (ou “bispos”) e os ministros (ou “diáconos”). Os anciãos lideram a igreja local, os ministros servem. Quando Paulo escreveu para a igreja em Filipos, ele se dirigiu a “todos os santos”, com os “bispos” e “diáconos” (1:1). Observe que há sempre mais do que um de cada.

Cristo é a Cabeça única de Seu Corpo, a Igreja, e o Espírito Santo é o seu único Representante na terra. Uma cabeça visível poderia parecer capaz de fazer tudo correr bem, mas a ordem de Deus e não o arranjo do homem é que deve ser o nosso verdadeiro guia. Se reconhecemos o Senhorio de Cristo, vamos alegremente nos submeter ao tipo de governo que Ele estabelece.

NOMEAÇÃO DE ANCIÃOS

No Novo Testamento, “presbíteros”, “bispos” e “anciãos” são nomes diferentes para as mesmas pessoas. Quando chamados “anciãos” isso aponta para a sua maturidade espiritual. Mas nem todos os homens mais idosos são anciãos (ver Tito 2:2-3, compare com Jó 32:9). Quando são chamados “presbíteros”, (às vezes “bispos”), isso aponta para o tipo de trabalho que fazem (Atos 20:17 com v.28; Tito 1:5 com v.7).O princípio de governo pelos anciãos é encontrado no Velho Testamento (Êxodo 3:16; 24:1; Números 11:16, 24-25). Nos primeiros dias da igreja havia semelhantemente uma liderança de anciãos. Eles são mencionados pela primeira vez na igreja em Jerusalém trabalhando junto com os apóstolos (Atos 11:30; 15:4, 6).

É o Espírito Santo que constitui bispos na igreja local (Atos 20:28). Na terra Ele é o único Representante divino de Cristo, que é a Cabeça da igreja no céu. A Palavra de Deus silencia sobre a nomeação de anciãos por autoridades eclesiásticas, ou sobre eleições e votos feitos por congregações, ou pelos anciãos existentes. No entanto, os anciãos existentes notarão outros irmãos, talvez mais jovens, que estão cuidando e são capazes, e têm as qualificações necessárias para serem anciãos. Esses outros irmãos devem ser encorajados a se juntar a eles em suas orações e consultas.

As primeiras igrejas recém-plantadas funcionaram por um curto período de tempo sem anciãos. Os missionários, como Paulo, em uma visita posterior, então escolheram aqueles que tinham as qualificações morais e espirituais para serem anciãos (Atos 14:23). Da mesma forma Paulo instruiu Tito para nomear anciãos nas igrejas em Creta (Tito 1:5). Este procedimento foi para proporcionar liderança para estas novas igrejas, e às vezes pode ser aplicado por evangelistas e missionários em novas áreas. A nomeação de um “bispo” ou um “arcebispo”, com uma responsabilidade mais ampla sobre as outras igrejas é um grave desvio do ensino do Novo Testamento. Um sistema de ordenação e nomeação pelo governo civil, por alguma faculdade ou corporação, ou por proprietários de terras, não é o caminho de Deus, mas a maneira do mundo.

O TRABALHO DOS ANCIÃOS

O trabalho de um ancião e sua posição são estritamente locais. Um ancião não tem autoridade para governar outra igreja local. Também deve-se notar que os anciãos não são uma diretoria estabelecida sobre uma igreja, mas são os que trabalham entre os santos (Atos 20:28; 1 Pedro 5:1-2; Lucas 22:24-26; Mateus 20:25-28). Eles dirigem e governam mediante a manifestação de um bom exemplo para todos. Eles não legislam, mas administram o bem-estar da igreja. Os assuntos administrativos de uma igreja podem ser cuidados por irmãos mais velhos, mas isso é mais o trabalho dos diáconos (ver o próximo capítulo).

Na Palavra de Deus, o trabalho dos anciãos é descrito em sete maneiras diferentes, que todos os anciãos devem observar com cuidado.

1. Pastoreio (poimaino). O próprio Cristo é o Sumo Pastor do Seu rebanho (1 Pedro 5:4; João 10:16). Os anciãos são sub-pastores. Em 1 Pedro 5:2 e Atos 20:28, “apascentar” significa “cuidar como um pastor de ovelhas”. A palavra “pastor” significa “pastor de ovelhas”. Pedro cita-se a si próprio como exemplo (1 Pedro 5:1, comparar com João 21:15-17). Paulo e Pedro eram apóstolos, mas também eram pastores e mestres, cujo trabalho abrangia toda a igreja (Efésios 4:11). Além disso, eram evangelistas. “Pastor” indica o trabalho de cuidar de almas, muitas vezes fazendo visitas particulares aos crentes. “Mestre”, indica o trabalho de explicar as Escrituras para edificar os crentes em sua fé, instruindo-os publicamente.Os deveres dos pastores das ovelhas são de supervisionar, cuidar e alimentar o rebanho. Eles instruem os ignorantes, visitam os doentes, confortam os moribundos, mostram compaixão para os enlutados, alertam os desordeiros, encorajam os desanimados, amparam os fracos e restauram o caído. Eles sempre devem ser longânimos para com todos (Tiago 5:14; 1 Tessalonicenses 5:14; Gálatas 6:1). Se for necessária ajuda material ou financeira, os anciãos ajudam com o seu próprio dinheiro ou com os fundos da igreja, se houver acordo neste sentido (Atos 20:34-35).

Um verdadeiro pastor sempre presta especial atenção aos cordeiros. Em Seus comandos para Pedro (João 21), nosso Senhor usa uma palavra que significa alimentar, ou fornecer pasto para os cordeiros (v.15) e para as ovelhas em crescimento (v.17). Mas no v.16 Ele usou uma palavra que significa cuidar delas, providenciando tudo o que as ovelhas possam necessitar. Os pastores falsos se preocupam mais em tosquiar as ovelhas do que em cuidar delas. Os mercenários são motivados por salários e não por amor, por isso não estão dispostos a assumir riscos pessoais (João 10:12-13). O ensino assalariado faz parte do clericalismo, onde o dinheiro muitas vezes determina o que deve ser ensinado ou omitido (Judas v.11; 2 Pedro 2.15). É essencial que haja pastores nas igrejas; mas ser o pastor de uma igreja é anti-bíblico.

2. Velando (agrupneo) no interesse das almas (Hebreus 13:17). Isto é frequentemente associado com a oração, como em Efésios 6:18 . Os inimigos dos crentes são poderosos e persistentes (1 Pedro 5:8; Atos 20:29-31; João 10:12; 2 Coríntios 11:13-15; Mateus 7:15-20). Então os pastores devem guardar o rebanho, bem como orientá-lo (1 Samuel 17:34-36). As ovelhas que ficam para trás e estão na borda do rebanho estão em maior perigo de serem atacadas por seus inimigos, também os doentes e débeis (Deuteronômio 25:18). Tais crentes precisam de cuidados especiais e atenção dos pastores.

3. Presidindo (proistemi). Esta palavra significa literalmente “ficar em pé na frente”. Significa liderar dando um bom exemplo. Esse é o significado em 1 Tessalonicenses 5:12, “trabalham entre vós e tomam a liderança na vossa frente”, também em 1 Timóteo 5:17, “anciãos que tomam a liderança, trabalhando na palavra e na doutrina”. Este trabalho importante deve ser feito com zelo (Romanos 12.8). Nos países orientais os pastores não impelem as ovelhas, mas vão à frente.

4. Administrando (hegeomai). Isso significa governar, presidir, como em Hebreus 13:7, 17, 24. Os anciãos não devem governar como ditadores ou dominadores (1 Pedro 5:3; Marcos 10:42-45), mas como exemplos. Eles devem ser os padrões não os príncipes! Sua autoridade é delegada pelo Senhor.

5. Sendo timoneiros (kubernetes). Um timoneiro dirige um navio em águas perigosas (Atos 27:11). Há muitas “pedras” perigosas neste mundo que poderiam arruinar o testemunho de uma igreja. Os anciãos têm que ser capazes de guiá-la para longe delas.

6. Labutando (kopiao). Isso significa trabalho árduo ou labuta como em Lucas 5:5. A tarefa dos anciãos é muitas vezes assim, como vimos em 1 Tessalonicenses 5:12 e 1 Timóteo 5:17. Em Atos 20:35, o trabalho braçal de Paulo é enfatizado. Um ancião não se limita a participar ou organizar reuniões para discutir assuntos da igreja, mas labuta entre os santos para o seu bem espiritual (Tito 1:9; Judas v.22-23). Este deve ser sempre feito em um espírito de humildade (1 Pedro 5:5).

7. Sendo mordomos (oikonomos). Esta palavra “mordomo” (Lucas 12:42), também descreve um ancião da igreja. O Senhor confiou aos anciãos uma responsabilidade ou encargo em Sua casa. Por cuidarem das coisas do Senhor, eles devem um dia prestar contas a Ele do seu desempenho (Hebreus 13.17). Todas estas palavras mostram que os deveres dos anciãos são principalmente relacionados com o bem-estar espiritual da igreja, não tanto com as coisas materiais. Os anciãos devem agir em plena comunhão com o resto dos crentes. É essencial que cada um tenha plena confiança no outro.

Os anciãos precisam se unir para oração e consideração dos assuntos da igreja. As reuniões dos anciãos devem seguir o padrão bíblico como em Atos 15:6; 21:8. Unidade de julgamento é sempre desejável. Não é prudente discutir todos os assuntos com toda a igreja, com os crentes mais jovens presentes. Por exemplo, as questões sobre o caráter de uma pessoa, ou possível disciplina, são para os anciãos investigarem primeiro e em particular. Eles podem depois aconselhar a igreja sem publicar todos os detalhes. Os anciãos devem tomar cuidado de si mesmos em primeiro lugar, em seguida de todo o rebanho (Atos 20:28).

QUALIFICAÇÕES DOS ANCIÃOS

1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9 descrevem claramente as qualificações dos anciãos. Um irmão não se torna um ancião por causa da sua habilidade natural, experiência em negócios, prosperidade financeira, ou posição social. Ele deve possuir qualidades morais e capacidade espiritual para o trabalho. Ele deve ser um homem da Palavra, um homem de fé, e um homem de oração. Ele deve ser sadio na doutrina e ter um estilo de vida que lhe corresponde (Hebreus 13:7; 2 Timóteo 2:2). Sua vida privada deve apoiar seu serviço público na igreja.

Dezoito palavras diferentes nestes versículos indicam o caráter necessário a um ancião. Três frases descrevem o que ele é e duas descrevem o que é capaz de fazer.

O que um ancião é:

  • Ele deve ser experiente, “não neófito”, ou seja, um recentemente convertido para a fé (1 Timóteo 3:6 – observe o motivo para isso).
  • Ele deve ser marido de uma mulher (1 Timóteo 3.2; Tito 1:6). Isto significa que a fidelidade do presbítero à sua esposa nunca está em dúvida.
  • O ancião também deve possuir um bom testemunho no mundo (1 Timóteo 3.7). Um desacreditado em seus negócios, por exemplo, seria desclassificado: veja novamente a razão dada.

O que um ancião é capaz de fazer:

  • Ele deve estar no controle eficaz da sua própria casa (1 Timóteo 3:4; Tito 1:6 – note outra vez a razão óbvia).
  • Ele deve ser “apto para ensinar” (1 Timóteo 3:2). Isso não é necessariamente a pregação pública, mas sim a capacidade de dar instrução, talvez em particular para os crentes mais jovens.

Devemos notar que um alto padrão é exigido nesta área importante da liderança da igreja. Em resumo pode-se dizer que um presbítero deve ser:

  • Irrepreensível em sua conduta,
  • Sensato e imparcial em seu julgamento,
  • Autocontrolado em palavra e ação,
  • Razoável em sua atitude (não teimoso ou obstinado),
  • Livre de qualquer tipo de ganância,
  • Disposto a ser hospitaleiro.

RECONHECIMENTO DOS ANCIÃOS

Os crentes na igreja podem reconhecer os anciãos entre eles por serem (1) os que possuem as qualificações necessárias, e (2) os que fazem o trabalho. Os crentes são então incumbidos de fazer sete coisas distintas.

1. “Conhecê-los” (1 Tessalonicenses 5:12). Isso significa saber por observação. Não é um reconhecimento formal ou oficial (para o qual uma palavra diferente é usada em 1 Coríntios 16:18, com v.16). Os anciãos vão obter reconhecimento se servirem bem os santos. As ovelhas de Cristo, instintivamente e de bom grado, vão seguir alguém que vieram a conhecer e em quem aprenderam a confiar.

2. “Estima-los” (1 Tessalonicenses 5:13). Valorizam muito esses irmãos e os apreciam em amor por causa de seu trabalho, não por alguma atração pessoal.

3. “Honra-los” (1 Timóteo 5.17). Aqui “dupla honra” significa que, além de respeitá-los, pode ser necessário dar-lhes algum apoio financeiro, como é o caso de alguns que dedicam seu tempo integral a este trabalho (v.18). No entanto o próprio exemplo de Paulo dado em Atos 20:34-35 também deve ser levado em conta.

4. “Confiar neles” (1 Timóteo 5.19 com v.1). Nenhuma acusação deve ser aceita contra um ancião, salvo mediante o depoimento de duas ou três testemunhas. Este é um princípio baseado nas palavras de Deuteronômio 19.15. Os anciãos podem ser expostos a críticas por causa do tipo de trabalho que, por vezes, têm que fazer, por exemplo, em questões de disciplina. Se houver qualquer motivo para questionamento, um ancião deve ser respeitado como um pai (v.1). Mas se algum pecado é provado deve haver uma censura pública (v.20). Os anciãos não devem deixar de levar em conta ou esconder uma falha em um de seus companheiros.

5. “Obedecê-los” (Hebreus 13:17). A lealdade para com os líderes é requerida por causa da sua solene responsabilidade diante do Senhor. Devemos obedecer as suas instruções declaradas no Senhor, e nos submeter aos seus conhecidos desejos (1 Pedro 5:5; 1 Coríntios 16:15-16).

6. “Lembrar deles” (Hebreus 13:7). Isto se refere aos líderes que tinham morrido, talvez tivessem sido martirizados. Devemos considerar o resultado de sua vida, seu término triunfante, e imitar seu exemplo fiel. O versículo seguinte nos lembra que embora os líderes se vão, Cristo permanece sempre o mesmo, a grande Pessoa em quem todos nós confiamos e servimos. Os sub-pastores adormecem, mas o Grande Pastor sempre supervisiona o Seu rebanho e levanta outros (v.20; comparar 1 Pedro 2:25).

7. “Saudai-os” (Hebreus 13.24). Cumprimente-os com benevolência para que possam ser incentivados em seu trabalho. Eles são muitas vezes criticados! Mesmo quando os crentes não concordam com as suas decisões, não deve haver nenhum ressentimento. Devemos sim orar frequentemente por eles (v.18; 1 Tessalonicenses 5:25; 2 Tessalonicenses 3:1).

O próprio Senhor reconhece os anciãos e o seu trabalho. A promessa maravilhosa é dada a eles em 1 Pedro 5.4, a ser cumprida no dia em que Lhe darão conta do seu desempenho (Hebreus 13:17). Esta imarcescível “coroa de glória” certamente será suficiente recompensa para as muitas tarefas difíceis de um verdadeiro supervisor na igreja.

“PRINCÍPIOS DA IGREJA DO NOVO TESTAMENTO”, por Arthur G Clarke | JOHN RITCHIE LTD PUBLICAÇÕES CRISTÃS, 40 Beansburn, Kilmarnock, Escócia. Copyright©2012 por John Ritchie Ltd. 40 Beansburn,Kilmarnock, Escócia | Usado com permissão. Novembro 2013 | Tradução feita por Richard

David Jones, Bible-Facts.